terça-feira, 15 de março de 2016

Livro de Daniel 13,1-9.15-17.19-30.33-62.


Naqueles dias, morava em Babilónia um homem chamado Joaquim.


Tinha desposado uma mulher chamada Susana, filha de Helcias, muito bela e temente ao Senhor.

Os seus pais eram justos e tinham instruído a filha na Lei de Moisés.

Joaquim era muito rico e tinha um jardim contíguo à sua casa. Os judeus reuniam-se com ele frequentemente, porque era o mais ilustre de todos eles.

Naquele ano tinham designado como juízes dois anciãos do povo, daqueles que o Senhor denunciara, dizendo: «De Babilónia veio a iniquidade de velhos que passavam por dirigentes do povo».

Estes dois frequentavam a casa de Joaquim e a eles recorriam todos os que tinham alguma questão de justiça.

Quando, ao meio do dia, o povo se retirava, Susana vinha passear para o jardim do seu marido.

Os dois velhos observavam-na todos os dias, quando entrava no jardim para passear, e apaixonaram-se por ela.

Perverteram a sua mente e desviaram os seus olhos de modo a não olharem para o Céu e não se lembrarem dos seus justos juízos.

Estando eles à espera de ocasião favorável, um dia Susana veio, como de costume, acompanhada somente de duas meninas; e, como estava calor, quis tomar banho no jardim.

Não se encontrava ali ninguém, senão os dois velhos escondidos a espreitá-la.

Susana disse às meninas: «Trazei-me óleo e unguentos e fechai as portas do jardim, para eu tomar banho».

Logo que elas saíram, os dois velhos levantaram-se, correram para junto de Susana

e disseram-lhe: «As portas do jardim estão fechadas, ninguém nos vê e nós estamos apaixonados por ti. Dá-nos o teu consentimento e entrega-te a nós.

Senão, acusar-te-emos dizendo que estava contigo um jovem e por isso mandaste embora as meninas».

Então Susana gemeu e exclamou: «Estou cercada por todos os lados: se praticar semelhante coisa, espera-me a morte; se não a praticar, não poderei fugir às vossas mãos.

Mas prefiro cair nas vossas mãos sem ter feito nada a pecar na presença do Senhor».

Então Susana gritou com voz forte, mas os dois velhos gritaram também contra ela

e um deles correu a abrir as portas do jardim.

Logo que as pessoas da casa ouviram estes gritos no jardim, precipitaram-se pela porta do lado, para verem o que tinha acontecido.

Quando os velhos contaram a sua versão, os servos coraram de vergonha, pois nunca se tinha dito de Susana semelhante coisa.

No dia seguinte, quando o povo se reuniu em casa de Joaquim, marido de Susana, vieram os dois velhos cheios de rancor contra ela, pretendendo condená-la à morte.

E disseram diante do povo: «Mandai chamar Susana, filha de Helcias, mulher de Joaquim». Foram buscá-la

e ela veio com os pais, os filhos e todos os parentes.

Os seus familiares choravam, assim como todos os que a viam.

Os dois velhos levantaram-se no meio do povo e puseram as mãos sobre a cabeça de Susana.

Ela, a soluçar, ergueu os olhos ao Céu, porque o seu coração confiava no Senhor.

Os velhos disseram: «Enquanto passeávamos sós pelo jardim, entrou ela com duas servas; fechou as portas do jardim e mandou embora as servas.

Veio então ter com ela um jovem, que estava escondido, e deitou-se com ela.

Nós, que estávamos a um canto do jardim, ao ver aquela maldade, corremos sobre eles.

Embora os tivéssemos visto juntos, não pudemos agarrar o jovem, porque era mais forte do que nós, e, abrindo a porta, pôs-se em fuga.

A ela, porém, apanhámo-la e perguntámos-lhe quem era o jovem, mas ela não quis dizer-nos. Somos testemunhas do facto».

A assembleia deu-lhes crédito, por serem anciãos do povo e juízes, e condenou Susana à morte.

Então Susana disse em altos brados: «Deus eterno, que sabeis o que é secreto e conheceis todas as coisas antes que aconteçam,

Vós sabeis que eles proferiram contra mim um falso testemunho. E eu vou morrer, sem ter feito nada do que eles maliciosamente disseram contra mim».

O Senhor ouviu a oração de Susana.

Quando a levavam para ser executada, Deus despertou o espírito santo dum rapazinho chamado Daniel,

que gritou com voz forte: «Eu sou inocente da morte desta mulher».

Todo o povo se voltou para ele e perguntou: «Que palavras são essas que acabas de dizer?»

Daniel, de pé no meio deles, respondeu: «Sois tão insensatos, ó filhos de Israel, que, sem julgamento nem conhecimento claro dos factos, condenais uma filha de Israel?

Voltai ao tribunal, porque estes dois homens levantaram contra ela um falso testemunho».

O povo regressou a toda a pressa e os anciãos disseram a Daniel: «Vem sentar-te no meio de nós e expõe-nos o teu pensamento, pois Deus concedeu-te a dignidade dos anciãos».

Daniel disse-lhes: «Separai-os um do outro e eu os julgarei».

Quando os separaram, Daniel chamou o primeiro e disse-lhe: «Envelheceste na prática do mal, mas agora aparecem os pecados que outrora cometeste,

quando lavravas sentenças injustas, condenando os inocentes e absolvendo os culpados, apesar de o Senhor dizer: ‘Não dareis a morte ao inocente e ao justo’.

Pois bem. Se viste esta mulher, debaixo de que árvore descobriste os dois juntos?». Ele respondeu: «Debaixo de um lentisco».

Replicou Daniel: «A tua mentira cairá sobre a tua cabeça, pois o Anjo de Deus já recebeu a sentença, para te rachar ao meio».

Depois de o terem afastado, Daniel ordenou que trouxessem o outro e disse-lhe: «Raça de Canaã e não de Judá, a beleza seduziu-te e o desejo perverteu-te o coração.

Era assim que procedíeis com as filhas de Israel e elas por medo entregavam-se a vós.

Pois bem, diz-me então: Debaixo de que árvore os surpreendeste juntos?» Ele respondeu: «Debaixo de um carvalho».

Replicou Daniel: «A tua mentira cairá sobre a tua cabeça, pois o Anjo de Deus está à tua espera com a espada na mão para te cortar ao meio. Assim acabará convosco».

Toda a assembleia clamou em alta voz, bendizendo a Deus, que salva aqueles que esperam n’Ele.

Levantaram-se então contra os dois velhos, porque Daniel os tinha convencido de falso testemunho, pela sua própria boca.

Para cumprirem a Lei de Moisés, aplicaram-lhes a mesma pena que tão impiamente tinham preparado para o seu próximo e executaram-nos; e foi salva naquele dia uma vida inocente.

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